Análise Comparativa entre Teologia do Pacto e Teologia da Dispensação

SEMINÁRIO TEOLÓGICO BETEL

TÓPICOS EM TEOLOGIA 1 – 2011 / 01 - AULA 3

PROFESSOR: HENRIQUE ARAUJO

 

UMA ANÁLISE COMPARATIVA DA TEOLOGIA DO PACTO, TEOLOGIA DA DISPENSAÇÃO E PERSPECTIVAS BATISTAS

 

            Como Deus se relaciona com o homem? Desde a criação do mundo o relacionamento entre Deus e o homem tem sido definido por promessas e requisitos específicos. Deus revela às pessoas como ele deseja que ajam e também faz promessas de como agirá com eles em várias circunstâncias.[1]

            As distinções básicas dos sistemas teológicos da dispensação e da aliança argumentam em torno do plano de Deus para grupos de pessoas que Ele redimiu; propósitos e promessas de Deus para Israel e para a Igreja; início da igreja; e questões corolárias.[2]

 

História do Dispensacionalismo

Surgiu em meados do século XIX na Inglaterra através dos Irmãos de Plymouth. John Nelson Darby (1800-1882) foi seu principal expoente. Ele foi um irlandês insatisfeito com a igreja Anglicana que, uniu-se ao grupo dos Irmãos, em 1927.

Apesar de ter se originado na Inglaterra, assumiu importância especial nos estados Unidos através de Scofield.[3]

Os dispensacionalistas enfatizaram estudos escatológicos, alegando terem redescoberto verdades universais. Entretanto, estes estudos eram muito literais. Difundiram-se rápido através da escrita e das cruzadas de Moody. O Instituto Bíblico Moody e o Seminário Teológico de Dallas foram exponenciais dispensacionalistas.

Um fator principal para a difusão dispensacionalista foi a Bíblia de Cyrus Ingerson Scofield (1843-1921) que, desde 1909 até hoje já vendeu mais de dois milhões de cópias. Ele foi advogado e político que converteu-se em 1879 e após três anos foi ordenado ministro congregacional sem qualquer formação teológica. Os benefícios trazidos pela impressão desta Bíblia estão no fato de ter sido publicada em uma época de grande ataque da alta crítica, gerando assim um refolegar do estudo das Escrituras. Contudo, os malefícios foram em maior número, pois na linha de Scofield há um grande desvio da correta interpretação bíblica e seus seguidores dispensacionalistas

 

Teologia Dispensacionalista

O termo “dispensação” deriva seu nome de sua compreensão acerca da existência de uma série de “dispensações” na história da salvação. “Dispensação” seria um “período de tempo ou ‘economia’ específico de relacionamento de Deus com Israel”.

Há pelo menos três tipos de dispensacionalismo, sendo que o mais difundido é, sem dúvida, o de Scofield.

 

Ultra-dispensacionalismo

E. W. Bullinger (1837-1913) afirmava que havia a igreja apostólica pentecostal de Atos, a Igreja-mistério paulina, e a igreja judaica remanescente do futuro, que é tratada, por Jesus de “minha igreja” em Mateus 16.

 

Neo-dispensacionalismo(ou Progressista)

Defendido por Charles C. Ryrie, John F. Walvoord, J. Dwight Pentecost, Robert Saucy, Craig Blaising e Darrell Bock. Afirma que Igreja e Israel se ajuntarão após o milênio. Deus não tem dois propósitos separados para Israel e a Igreja, mas apenas um: o estabelecimento do reino de Deus. Porém ainda afirmam que as profecias concernentes ao Israel do Antigo Testamento serão cumpridas no povo judeu no milênio.[4]Não entendem a igreja como o “Novo Israel”.

 

Dispensacionalismo Clássico

Cyrus I. Scofield e Lewis S. Chafer são seus principais representantes. Para os dispensacionalistas clássicos, o plano de Deus para com Israel é terreno e com a Igreja é celestial. Há dois tipos de salvação: obras e fé.

Deus tem dois povos distintos: Israel e a Igreja. A Igreja não é reconhecida como o Israel do Novo Testamento e Israel não é reconhecido como a Igreja do Antigo Testamento. Deus trata com eles de maneira distinta.

Israel morará eternamente na nova terra e a igreja morará eternamente no novo céu. Israel iniciou com a chamada de Abraão e a Igreja teve seu início no dia de Pentecostes.

A Igreja como corpo de Cristo não existe no Antigo Testamento e os santos do Antigo Testamento não fazem parte do Corpo de Cristo.

Todas as profecias feitas no Antigo Testamento com relação a Israel deverão se cumprir literal e incondicionalmente em Israel como nação. Nenhuma promessa do Antigo Testamento se refere à Igreja, pois isto violaria a literalidade. Todos os que não interpretam as profecias literalmente são considerados, pelos dispensacionalistas, como “alegorizadores”. Apesar desta proposição, os teólogos dispensacionalistas adotaram vastamente a “tipologia”, que é uma espécie de hermenêutica espiritualizada que interpreta elementos do Antigo Testamento como imagens proféticas de Cristo.[5]

A era da Igreja é um parêntese na vida de Israel. A igreja só nasceu pelo fato da rejeição do Messias por parte dos judeus. Caso eles não tivessem rejeitado o Messias, o reino judaico teria iniciado durante a primeira vinda de Cristo. Logo após o arrebatamento da Igreja o plano de Deus com Israel será retomado. O Dispensacionalismo é universalmente caracterizado por uma crença no futuro nacional de Israel. Essa crença se manifesta no apoio ao Movimento Sionista, bem como em apoio político ao Israel nacional.[6]

O Programa de Deus com a humanidade está dividido em sete dispensações. Para Scofield, uma dispensação é “um período de tempo durante o qual o homem é testado quanto a sua obediência a alguma revelação da vontade de Deus”. Cada dispensação termina com o fracasso humano e com o juízo de Deus. Em cada dispensação houve um modo de salvação para o homem.

As dispensações são os períodos de tempo em que Deus trata com a humanidade de uma maneira diferente, principalmente com relação ao pecado e a responsabilidade humana.

As dispensações são sete:

  • Inocência – Da criação de Adão até sua expulsão do Jardim do Éden;
  • Consciência – Da expulsão do Jardim até o Dilúvio;
  • Governo Humano – Do Dilúvio até a confusão em Babel;
  • Promessa – De Abraão até a escravidão no Egito;
  • Lei – Do Sinai até o cativeiro de Israel e Judá de Canaã para uns, para outros, até a morte de Cristo;
  • Graça – Da Morte de Cristo até o arrebatamento da Igreja;
  • Reino – Da Segunda Vinda até o juízo do Grande Trono Branco.

            As promessas do Reino não se referem à Igreja, mas a Israel.

            Os dispensacionalistas enumeram diversos tipos de evangelho, mostrando a diferença do modo de Deus tratar com o Seu povo. Não era o mesmo evangelho acrescido de temas diferentes, mas evangelhos de conteúdos e temas diferentes.

  • O Evangelho do Reino – São as boas-novas que Deus se propõe a estabelecer na terra, ou seja, um reino político, israelítico e universal, sobre o qual, Cristo será rei por mil anos. Há duas pregações deste evangelho: A pregação de João Batista e a pregação durante a Tribulação;
  • Evangelho da Graça – São as boas novas de Jesus Cristo;
  • O Evangelho Eterno– Que será pregado aos moradores da terra antes da tribulação (Ap 14.6), imediatamente antes do julgamento das nações. Seu tema é “o julgamento” e significa boas novas para Israel e para aqueles que forem salvos durante a tribulação.
  • O que Paulo chama de “Meu Evangelho” –É o evangelho da graça de Deus em seu mais pleno desenvolvimento.

 

Breve História da Teologia da Aliança

A doutrina da Aliança foi uma das contribuições teológicas principais que vieram à Igreja através da Reforma Protestante do século XVI.

Anteriormente, tinha sido pouco desenvolvida, mas apareceu nos escritos de Zuínglio e Bullinger. A partir deles, passou para Calvino e outros reformadores. Foi desenvolvida pelos sucessores destes, e desempenhou um papel predominante em boa parte da teologia reformada do século XVII, quando veio a ser conhecida como a teologia da aliança, ou a teologia federal.

 

As Alianças

Segundo Gruden, “Uma aliança é um acordo imutável e divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições de relacionamento entre as partes”.[7]

Os teólogos da aliança propõem que o relacionamento entre Deus e a humanidade é um acordo que Deus estabeleceu como um reflexo do relacionamento existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade.[8]

A teologia da aliança concentra-se no relacionamento contínuo entre Deus e a humanidade através de alianças, ou pactos, que não são substituídos, mas sobrepostos. As alianças são imutáveis. Elas podem ser suplantadas ou substituídas por outra aliança ou pacto, mas uma vez estabelecidas, não podem ser alteradas.

Alguns enxergam sete alianças ou pactos (edênico, adâmico, noaico, abrâmico, mosaico, davídico e novo pacto). Todavia, parece que esta observação a respeito das alianças soa incorreto para alguns que não conseguem ver no Éden um pacto ou aliança, mas sim em Adão.[9]

Há uma possibilidade de Aliança com Adão através da promessa de Gênesis 3.15 e na provisão de Deus em vestir Adão e Eva.

Deus fez uma Aliança com Noé após o dilúvio (Gn 9.8-17) de que não destruiria a terra através do dilúvio novamente.

Na Aliança com Abraão (Gn 15.1-21, 17.1-27) os elementos da aliança da graça já estão presentes. Paulo e Zacarias reiteram isto mais adiante (Gl 3.8 e Lc 1.72-73).

A Aliança feita com Moisés (Ex 19-24) é chamada de “Velha Aliança” (2Co 3.14; Hb 8.6, 13) que seria substituída pela “Nova Aliança” em Cristo (Lc 22.20; 1Co 11.25; 2Co 3.6; Hb 8.8).

A Aliança que foi feita com Davi asseverava que haveria sempre um descendente seu que ocuparia o trono (2Sm 7.12-16). A palavra “aliança” não aparece neste texto, porém há um subseqüente (2Sm 23.5).

A Nova Aliança feita em Cristo é muito melhor, pois cumpre as promessas feitas em Jeremias 31.31-34, corroboradas em Hebreus 8.6-13. Nesta aliança há bênçãos maiores: expiação para sempre dos pecados (Hb 9.24-28), revelação de Deus de uma forma mais plena (Jo 1.14; Hb 1.1-3), o Espírito Santo com poder (At 1.9, 1Co 12.13; 2Co 3.4-18), Sua lei no coração (Hb 8.10) e é eterna (Hb 13.20).

Uma proposição mais concisa e mais aceita acerca das alianças tem sido feita de modo tripartite: Aliança das obras, Aliança da Redenção e Aliança da Graça.[10]

A Aliança das Obras fôra feita com Adão no Éden. Apesar da palavra “aliança” não aparecer em Gênesis, todos os elementos de uma aliança estavam lá: uma definição clara das partes envolvidas; um conjunto de provisões que compromete legalmente e estabelece as condições de relacionamento; a promessa de bênçãos pela obediência e a condição para obter aquelas bênçãos (Gn 1.28-30, 2.15; Os 6.7; Rm 5.12-21)

A Aliança da Redenção não é uma aliança entre Deus e o homem, mas entre os membros da Trindade. É um acordo entre Pai, Filho e Espírito Santo, no qual o Filho concordou em tornar-se homem, ser nosso representante, obedecer às exigências da aliança das obras em nosso favor e pagar o preço do pecado, que merecemos. Esta aliança é diferente das alianças entre Deus e o homem porque as partes ingressaram nele como iguais, e nas alianças com o homem Deus é o Criador soberano que impõe as provisões da aliança por decreto próprio.

A Aliança da Graça é a mais explícita nas Escrituras. Nela, Deus oferece a vida e a salvação, mediante Cristo, a todos os que creem. Quando o homem falhou em sua função e não conseguiu obter as bênçãos oferecidas pela aliança das obras, foi necessário que Deus criasse um novo caminho, caminho este pelo qual o homem pudesse ser salvo. Após a queda, em Gênesis 3, as Escrituras relatam como se desenvolveu esta aliança da graça. As partes dela são Deus e o povo a ser redimido. A condição é a fé na obra de Cristo. A promessa é a vida eterna. O sinal era a circuncisão no Antigo Testamento e o batismo no Novo Testamento.

Os elementos da aliança permanecem os mesmos, mas os termos específicos desta aliança variam:[11]

 

Teologia da Aliança (ou dos Pactos)

Mas quais são as características principais e essenciais desta teologia?

O relacionamento de Deus com o Seu povo, por meio da aliança é o foco central desta teologia. Sua divisão tripartite em Aliança das obras, da graça e da redenção, conforme vistas no item anterior perfazem a base central desta teologia.

A teologia das alianças não considera cada pacto/aliança separado e distinto, mas cada pacto apóia-se nos anteriores incluindo aspectos dos mesmos e culminando na nova aliança.

A igreja é o Novo Israel e Israel é a Igreja do Antigo Testamento. Deus não tem dois povos distintos ou dois planos separados. Ele tem um povo: o Povo de Deus. Seu plano é reunir este povo em um só corpo, tanto na era do Antigo Testamento quando na era do Novo Testamento.

Deus tem um plano de salvação para o Seu povo desde os tempos de Adão. É um plano de graça, sendo a realização do pacto eterno da graça e vem através da fé em Cristo.

A Igreja surgiu na eternidade e não no tempo. Seu início não foi apenas no Novo Testamento no dia de Pentecostes. Sua composição se inicia no primeiro santo até o último antes da volta de Cristo.

As promessas mencionadas em Jeremias 31.31 encontram seu cumprimento no Novo Testamento. Além disso, há diversas promessas que encontram seu cumprimento na vida da Igreja, no Novo Israel.

 

 

Perspectivas Batistas

  Desde o início de sua história, apesar da separação dos batistas particulares (calvinistas) e batistas gerais (arminianos), os batistas, especificamente, os brasileiros (da Convenção Batista Brasileira, doravante, CBB), não adotam uma postura tácita sobre uma teologia ou outra, não se pronunciando sobre a teologia da aliança ou teologia da dispensação em sua declaração doutrinária.

Apesar de não haver uma declaração específica expressa sobre uma teologia ou outra em sua declaração doutrinária, os batistas, na prática, enfatizam um relacionamento contínuo de Deus com Sua Igreja por intermédio de Jesus Cristo.

Creem que Deus planejou enviar Seu Filho ao mundo desde antes da fundação do mundo, mas não advogam qualquer “aliança da redenção” ou “aliança das obras”. Antes, a ênfase recai na necessidade do homem se arrepender e crer.

A Igreja é vista como Novo Israel e as promessas feitas para Israel são aplicadas à Igreja, entretanto, há diversas e variadas promessas que transparecem dizer respeito especificamente a um Israel etnográfico. Assim sendo, busca-se “deixar o texto bíblico falar por si mesmo”.

 

Conclusão

            A teologia da aliança e a teologia da dispensação surgem em contextos espaço-temporais diferentes. A primeira encontrando mais adesão nas denominações reformadas, a segunda nas denominações pentecostais. Os batistas buscam uma postura mais equilibrada entre ambos.

            É importante a definição teológica pois a mesma influenciará na interpretação dos textos bíblicos, nos estudos, nas produções artísticas cristãs. Contudo, esta definição teológica não vem de uma hora para outra.

            Um estudo teológico profundo, ajudará bastante nas definições, além de, principalmente, o exame das Escrituras para buscar nelas o que elas mesmas falam acerca do assunto. “A Escritura a si mesmo se interpreta” é um dos lemas reformados que é fundamento da igreja cristã. Assim sendo, devemos examinar as Escrituras profundamente visando um sistema teológico bíblico e coerente.
 


   [1] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 425.

   [2]GRUDEM, Wayne. Op. Cit., p. 720.

   [3]McGRATH, Alister E. Teologia Histórica, Filosófica e Sistemática. São Paulo: Shedd Publicações, 2006, p. 638.

   [4] GRUDEM, Wayne. Op. Cit., p. 721.

   [5] SAWYER, M. James. Uma Introdução à Teologia: Das questões preliminares, da vocação e do labor teológico. São Paulo: Vida, 2009, p. 414.

   [6] SAWYER, M. James. Uma Introdução à Teologia: Das questões preliminares, da vocação e do labor teológico. São Paulo: Vida, 2009, p. 420.

   [7] GRUDEM, Wayne. Op. Cit., p. 425. Para Barth, “aliança é a união de Deus com esse povo, dentro de sua história comum. Ela fala, de maneira estranhamente contraditória, mas inequívoca, do encontro jamais interrompido, do diálogo, da comunhão entre o Deus santo e fiel e um povo que não é santo nem fiel”. Cf. Em BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 8a Ed., 2003, p. 20.

   [8] ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. V. III. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 454..

   [9] Segundo Smith, “falamos com freqüência de alianças, mas o Antigo Testamento só fala de aliança”. Cf. SMITH, Ralph. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 141.

   [10] Falando sobre aliança, Barth diz o seguinte: “Em Cristo, a antiga e única aliança feita com Abraão, proclamada por Moisés, confirmada a Davi, se transforma em aliança nova na medida em que agora o próprio santo e fiel Deus de Israel apresenta seu parceiro humano santo e fiel – fazendo um ser encarnar-se no meio de seu povo, aceitando este ser humano sem reservas, solidarizando-se com ele na relação de pai com filho e, evidenciando-se a si próprio, sendo Deus, como idêntico a ele, esse mesmo ser humano. Assim não deixa de ser a história de Deus com Israel, seu povo, e a de Israel com seu Deus, que se consuma na existência e manifestação, obra e palavra de Jesus de Nazaré”. Em BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 1993, p. 20.

   [11]SMITH, Ralph. Op. Cit., p. 144-154.


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